BRASIL: Renúncia de Zuma mostra que democracia na África do Sul resiste, diz analista
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RIO e CIDADE DO CABO - O impasse político na África do Sul não poderia ter terminado com uma vitória de Jacob Zuma, o presidente que renunciou na quarta-feira sob pressão do próprio partido, o Congresso Nacional Africano (CNA). É o que sustenta Richard Calland, professor de Direito da Universidade da Cidade do Cabo. Colunista do jornal sul-africano "Mail & Guardian" e ex-analista do Carter Center, Calland acredita que a transição do "fraco e corrupto" Zuma para seu vice, Cyril Ramaphosa, resgatará a credibilidade do CNA, o partido que dirigiu a luta contra o apartheid e levou seu líder, Nelson Mandela, à Presidência em 1994, nas primeiras eleições depois do fim do regime da minoria branca. O CNA governa a África do Sul desde então. Para Calland, apesar da crise política e econômica - o país quase entrou em recessão no ano passado -, a democracia sul-africana resiste. A sociedade civil e a Justiça tiveram papel importante na saída de Zuma, cujo mandato iria até as eleições legislativas de 2019, disse. No país, o presidente é eleito pela Assembleia Nacional.

Qual a profundidade desta crise política para o CNA? Zuma se recusava a renunciar, e não havia certeza de que seus colegas do partido conseguiriam derrubá-lo.

O CNA procura sair da crise na qual foi colocado por um líder fraco e corrupto, que é Zuma. Durante seus dez anos como presidente do partido, a legenda se tornou mais dividida do que nunca, e seu domínio eleitoral já não é mais certo. Ele traiu os princípios e valores dos anos Mandela. A recusa em renunciar mostrava que ele estava disposto a colocar seus interesses à frente dos interesses do CNA.

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As acusações contra Zuma são apenas uma questão de corrupção?

Existem potencialmente dois conjuntos de acusações contra Zuma. As antigas (quase 800), relacionadas a seu envolvimento no escândalo do Acordo de Armas do final da década de 1990, que foram ilegalmente arquivadas em março de 2009, pouco antes de ele se tornar presidente, e que a Suprema Corte disse que devem voltar a ser investigadas. Há também as novas, que surgiram do seu tempo como presidente, quando permitiu que uma rede de privilégios explorasse as instituições do Estado.

Esta é a segunda vez nos últimos anos que a África do Sul experimenta a partida antecipada de seu presidente. Isso explica algo sobre a situação democrática do país?

A partida de Zuma prova que a democracia da África do Sul é resiliente. A sociedade civil tem sido robusta em suas críticas contra Zuma, a imprensa livre fez importantes revelações, e os tribunais se mostraram fortes e independentes. Enquanto algumas instituições foram "capturadas", outras lutaram e mantiveram a integridade. Com Ramaphosa, um ex-líder sindical, áreas em retrocesso podem ser recuperadas, e a confiança e a unidade podem ser reconstruídas. O CNA pode ser devolvido a suas raízes social-democratas.

Que mudanças o senhor acha que Ramaphosa traria para o CNA e para a África do Sul? Seria uma escolha apropriada para curar as divisões crescentes no país e promover mudanças significativas?

Ramaphosa tem um histórico notável. Está bem equipado para enfrentar os vários desafios que o país encara. Ele tem credibilidade com todos os principais setores econômicos, incluindo negócios e sindicatos. Mas a sua lista de coisas a fazer é longa, e ele deve reconstruir as instituições do Estado e moldar um novo consenso sobre o crescimento econômico inclusivo, ao mesmo tempo reconstruindo a unidade no CNA antes das eleições nacionais de 2019, que serão disputadas ferozmente, com o partido já incerto de conseguir uma maioria legislativa.

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Con Información de OGlobo

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