‘Certamente é o meu último filme’ , diz Agnès Varda sobre 'Visages, villages'
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SÃO PAULO — Aos 89 anos, Agnès Varda pôde se dar ao luxo de não comparecer ao almoço dos indicados ao Oscar, na semana passada, em Los Angeles, e mandar retratos seus em papelão, em tamanho natural, para a foto anual da Academia. A veterana cineasta franco-belga garante, no entanto, que estará na cerimônia de entrega das estatuetas, dia 4 de março, por entender que a indicação de seu filme a melhor documentário é uma importante ferramenta promocional. Varda e o fotógrafo francês JR assinam "Visages, villages", em cartaz há três semanas no Rio. O longa conquistou a crítica — o Bonequinho o aplaudiu de pé — e vem emocionando o público com o retrato caloroso de personagens garimpados pela dupla.

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— Sempre fiz filmes, mas eles nunca deram dinheiro — diz Varda ao GLOBO, por telefone, de sua produtora em Paris. — Não estou em competição com Hollywood. Sou uma convidada.

"Visages, villages" acompanha a dupla pelo interior da França para captar imagens e impressões de pessoas comuns. Eles tiram fotos dos personagens que conhecem ao longo da jornada — mulheres de trabalhadores portuários, viúvas de operários que resistem à especulação imobiliária, funcionários de uma fábrica. Os registros são ampliados em grande formato por JR e colados em prédios e espaços públicos — ação que o fotógrafo já fez em diversas cidades do mundo, inclusive no Rio, mas ganha ainda mais força como celebração ao cidadão anônimo neste encontro audiovisual com Varda.

Há ainda uma tentativa de encontrar o diretor franco-suíço Jean-Luc Godard, nome seminal da nouvelle vague e amigo de Varda. Ela e JR vão até a casa do diretor de "Acossado" (1960), mas se deparam com a porta fechada, e o que se segue é uma reação emocionada da cineasta.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

O filme começa com uma encenação do primeiro encontro entre a senhora e JR. Quais os bastidores dessa reunião?

É verdade que não nos conhecíamos antes de fazer o filme. Eu sabia do trabalho de JR, tinha visto os seus livros. E ele tinha visto os meus filmes. Minha filha Rosalie (Varda) , que produz o documentário, me disse: "Como vocês ainda não se conhecem?". Então, marcamos um encontro. Nós nos demos bem logo de cara, foi amizade à primeira vista. Por isso, pensamos em fazer algo juntos. E ele tem aquele caminhão mágico. Eu me apaixonei por aquele veículo. Eu disse: "Quero viajar nesse carro!".

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Eu e JR fizemos um filme de 90 minutos sobre encontrar pessoas e tivemos grande prazer em fazer isso. Falamos com pessoas do interior, trabalhadores portuários e camponeses. Gente comum, sabe? Como filmamos apenas uma semana por mês, durante 18 meses, tínhamos tempo para pensar em novas ideias. Foi assim que fizemos, por exemplo, na sequência do porto, "a cidade dos homens"! JR conhecia aqueles homens, mas fui eu que transformei as mulheres deles em personagens. Aquelas fotos gigantescas nas laterais de uma pilha de contêineres ficaram lindas, não acha?



Mantém contato com esses personagens?

Alguns deles, sim. Por exemplo, a mulher que vive sozinha em um conjunto de prédios de operários. Nós nos correspondemos, e eu envio chocolates para ela. As mulheres dos trabalhadores portuários também ficaram próximas.

Muito se comenta sobre a diferença de idade entre a senhora, que tem 89 anos, e JR, que tem 34 anos. Acha que isso ajudou no processo?

Não nos importamos com a diferença de idade. Compartilhei com JR uma foto que fiz de (Jean-Luc) Godard e (da atriz e mulher do cineasta) Anna Karina quando eu tinha 33 anos. E ele me disse: "Hoje eu tenho 33 anos". Nós rimos. Essa questão da idade nunca foi importante para nós.

Essa mesma foto levanta outra questão no filme, a mania de JR de usar óculos escuros em todas as ocasiões.

A questão dos olhos também tem origem na foto de Godard, que fiz em 1961. Ele estava sempre de óculos escuros e, naquele dia, pedi que tirasse para eu poder enxergar seus olhos. Com JR foi a mesma coisa, porque passo o filme inteiro pedindo para ele tirar os óculos. Só no fim ele faz isso, uma vez, mas não consegui ver seus olhos.

Godard acaba participando do filme indiretamente, ao não receber a senhora e JR para uma visita. Foi planejado?

JR estava curioso para encontrar Godard e, então, marcamos um encontro. Nós aparecemos, e ele não. Fiquei chocada porque não achava que isso iria acontecer. Mas, pensando em retrospecto, acho que ele estava certo, porque afinal acabou acrescentando algo ao roteiro.

Depois do filme, chegou a falar com Godard?

Apenas mandei um DVD com o filme. Mas ele nunca me disse nada. E nem falamos sobre o assunto desde então. Temos que aceitar os mistérios das pessoas. Não dá para entender tudo de todo mundo. Como disse, não fiquei com raiva. Eu me lembro com carinho dos bons tempos que passamos juntos. Essa memória é muito mais importante do que o comportamento dele.

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Por que mandou fotos suas para o almoço dos indicados ao Oscar?

JR estava em São Francisco para um evento qualquer. Eu estava em Paris, precisaria de dez horas para chegar lá de avião. Como eu não podia ir, conversamos por telefone e tivemos a ideia das fotos. Já que sempre viajamos juntos para representar o filme, foi a maneira que encontramos de manter a tradição.

Mas a senhora vai estar em Los Angeles para a cerimônia de entrega do Oscar?

Sim, claro. Estive em Los Angeles em novembro para receber um Oscar honorário. E estarei na cerimônia de entrega dos prêmios, em março, com toda a certeza. É uma chance em cinco, temos que aproveitar isso.

Tem certeza de que "Visages, villages" é seu último filme, como vem dizendo?

Você sabe que tenho quase 90 anos, não é? Tenho dado palestras, muitas delas. O que estou fazendo no momento é um filme com uma palestra minha. Vou editá-lo e mandar no meu lugar, para não ter que fazer isso pessoalmente. "Visages, villages" certamente é o meu último filme para o cinema, já que não tenho mais energia para todo o processo de lançamento. Nos últimos dez anos, tenho feito muitas videoinstalações, exposições em museus, em galerias de arte. É onde eu acho que me encaixo melhor.

‘Certamente é o meu último filme’ , diz Agnès Varda sobre 'Visages, villages'

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