Com sete indicações ao Oscar, 'Três anúncios para um crime' traz mãe em busca de justiça
OGlobo /

RIO — Na era do #MeToo e de outros movimentos de afirmação feminina, Mildred Hayes pode ser considerada uma das encarnações do sentimento reivindicatório da mulher de hoje. Determinada a encontrar o assassino da filha, sai como um trator sobre o machismo e o racismo da cidadezinha (fictícia) em que mora, enfrentando representantes da lei, da Igreja e de quem mais se intrometa no caminho.

Mas a protagonista de "Três anúncios para um crime" , que chega aos cinemas hoje amparado por sete indicações ao Oscar, incluindo os de melhor filme e atriz (Frances McDormand) , é criação de um homem, o dramaturgo, diretor e roteirista britânico Martin McDonagh (leia mais abaixo).

LEIA A CRÍTICA DO BONEQUINHO: 'Uma trama de violência, caos e humor negro'

Autor de "Na mira do chefe" (2008) e "Sete psicopatas e um Shih Tzu" (2012), dois longas com violência, palavrões e personagens masculinos, McDonagh até então era mais conhecido pela precocidade com que conquistou os palcos britânicos — em 1997, aos 26 anos, ele se tornou o primeiro autor desde Shakespeare a ter quatro peças em cartaz simultaneamente em palcos de Londres.

Foi preciso uma heroína sem papas na língua para o realizador ter reconhecimento no cinema, que buscava desde que ganhou o Oscar de curta-metragem com "O revólver de seis tiros" (2004).

— Estranhamente, meus dois primeiros filmes eram dominados por homens. Talvez seja influência de minha admiração pelo cinema americano dos anos 1970. Mas minhas primeiras peças também tinham mulheres fortes— observou o realizador de 47 anos durante o Festival de Veneza, onde "Três anúncios (…)" venceu o prêmio de roteiro. — Achei que era hora de escrever sobre uma mulher tão firme em seu propósito. Foi desafiador.

FRANCES MCDORMAND PODE LEVAR SEU SEGUNDO OSCAR

De fato, Mildred xinga e usa de violência física quando precisa. Inconformada com o que considera incompetência da polícia, ela aluga espaço em três outdoors na estrada de acesso à cidade em que mora, no Missouri, cobrando do chefe de polícia Bill Willoughby (Woody Harrelson) uma solução para o estupro e a morte da filha, ocorrido sete meses antes. A estratégia desencadeia reações na comunidade, especialmente de Dixon (Sam Rockwell), o racista assistente de Bill. Mildred se torna uma bomba imprevisível.

— Criar uma personagem assim é excitante, porque você nunca sabe o que ela fará em seguida, e como as pessoas reagirão. Há algo de libertador em escrever sobre uma mulher assim — reconhece o diretor, que desenvolveu o papel com Frances em mente. — Não imagino nenhuma outra atriz nele. Ela tem a integridade, a vulnerabilidade e a destreza cômica da personagem. Queria mostrar esses aspectos sem ser paternalista ou unidimensional.

Publicidade

Mildred pode dar o segundo Oscar a Frances, ganhadora do prêmio pela policial grávida de "Fargo — Uma comédia de erros" (1996), codirigido pelo marido Joel Coen e o cunhado, Ethan. Vencedora da categoria do Globo de Ouro e do Sindicato dos Atores americanos, ela é voz ativa em campanhas por direitos das mulheres.

— Quando comecei a buscar por personagens icônicos que talvez pudessem me ajudar a moldar a Mildred, os únicos que pude encontrar foram tipos masculinos — contou a atriz, 60 anos, em Veneza. — Cheguei a pensar em recorrer aos papéis que Pam Grier fez durante a fase áurea dos filmes blaxploitation, nos anos 1970. Mas aí eu me dei conta de que as personagens dela eram mais ancoradas em sua sexualidade. Então, aquele que acabei me agarrando mais, como referência, foram os cowboys de John Wayne. Eu uso o andar dele em "Três anúncios para um crime". Posso fazer um bom John Wayne, podem acreditar.

"Três anúncios para um crime" chega aos cinemas em um momento de volatilidade política e social nos EUA, açoitado por diretrizes segregacionistas. A trama de McDonagh toca na superfície de alguns dos temas polêmicos, como o racismo arraigado nos rincões do país: Mildred só encontra apoio nos poucos afro-americanos e imigrantes mexicanos da cidade. Alguns críticos chegaram a sugerir que o filme vilaniza o interior americano e louva impulsos justiceiros.

— O filme não foi desenhado para reproduzir a verdade de uma cidade sulista dos EUA. Ele apenas fala sobre esses personagens, que não são nem totalmente bons, nem totalmente maus — explicou McDonagh, que se inspirou em mensagens semelhantes que vira na estrada, 20 anos atrás, em viagem pelo interior do país. — A diferença é que a trama tinha que acontecer em algum estado sulista, por causa do peso da região e seu histórico racista. Mas sempre será uma história americana, até pela simbologia dos outdoors de estrada, um ícone da cultura do país.

UMA VIDA NO TEATRO

Filho de imigrantes irlandeses, Martin McDonagh viveu sua vida adulta no Sul de Londres. Largou a escola aos 16 anos, foi servidor público por um curto período de tempo e abandou tudo novamente para dedicar-se à escritura, apesar de não ter nenhum treinamento formal na área.

Munido de sua paixão pelo cinema americano e "o respeito por toda a história do cinema e um vago desrespeito pelo teatro", começou a escrever peças provocadoras e populares — seus seis primeiros textos foram escritos em apenas 10 meses, entre 1994 e 1995. Em 1997, aos 26 anos, ele se tornou o primeiro autor desde Shakespeare a ter quatro peças em cartaz simultaneamente nos palcos de Londres.

O teatro, em muitos sentidos, serviu como meio para chegar aos filmes. "The beauty queen of Leenane", seu primeiro texto a ser encenado, fala sobre o relacionamento entre uma solteirona e a mãe dominadora. O ambiente sombrio e a linguagem violenta e ao mesmo tempo cômica da peça ele diz, foi "influenciado pelos filmes de Quentin Tarantino, e as peças de Harold Pinter e Samuel Beckett".

Publicidade

Era o início de uma trilogia que ainda gerou "A skull in Connemara" e "The lonesome west". Esta última, sobre dois irmãos que se engalfinham após a morte supostamente acidental do pai, é tida como um protótipo de "Na mira do chefe", sua estreia no longa-metragem.

As relações entre teatro e cinema não param aí. Em 2003 estreia "The pillowman", um enredo kafkaniano sobre um escritor questionado pela polícia sobre as semelhanças entre alguns de seus contos e uma série de assassinatos ocorridos na cidade. Há quem enxergue nela o mesmo propósito de desconstrução do processo artístico de "Sete psicopatas e um Shih Tzu", seu segundo longa.

Do mesmo modo, pode-se dizer que "A behanding in spokane", que estreou em Nova York alguns anos depois, tenha servido como ponto de partida para "Três anúncios par um crime", pois é ambientada nos Estados Unidos e toca em temas como preconceito racial.

Com sete indicações ao Oscar, 'Três anúncios para um crime' traz mãe em busca de justiça

Con Información de OGlobo

www.entornointeligente.com

Síguenos en Twitter @entornoi

También te puede interesar