BRASIL: O carnaval do Rio pelos colunistas de O GLOBO
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Grande Rio e Império Serrano estão fora do Grupo Especial

Vice-campeã do carnaval, Tuiuti protagonizou tragédia no carnaval de 2017

O carnaval do Rio pelos colunistas de O GLOBO 1 2 3 4 5 6 7 8 de 8 Capitulo 1 Catarse coletiva Capitulo 2 O júri que foi carregado pelo povo Capitulo 3 Quando coração e clamor importam mais Capitulo 4 Quem ganhou foi o carnaval Capitulo 5 Na Sapucaí, até a corrupção acaba em samba Capitulo 6 Carnaval, carnaval Capitulo 7 Aguardando o próximo carnaval Capitulo 8 Oh, pátria amada, esqueceram o PT! Catarse coletiva O júri que foi carregado pelo povo Quando coração e clamor importam mais Quem ganhou foi o carnaval Na Sapucaí, até a corrupção acaba em samba Carnaval, carnaval Aguardando o próximo carnaval Oh, pátria amada, esqueceram o PT! Catarse coletiva por Flávia Oliveira De início, confesso meu conflito de interesse. Torço pela Beija-Flor; dos últimos 20 carnavais, não desfilei em cinco, aí incluído este do ano da graça de 2018. Assim, sem negar a alegria pelo 14º título, apresento reflexões sobre o desfile do Grupo Especial. Foi um acerto a profusão de enredos de crítica social, em detrimento da avalanche de narrativas patrocinadas de outrora. Todas as seis escolas que voltarão a desfilar no Sábado das Campeãs contaram histórias que, explícita ou sutilmente, traziam provocações contra mazelas locais, nacionais ou planetárias. Beija-Flor, Paraíso do Tuiti, Mangueira e Mocidade, com ênfase nas três primeiras, foram mais viscerais. Mas foi ato de resistência se bater contra o extermínio dos filhos das mulheres negras, como fez o Salgueiro, e contra a xenofobia, caso da Portela.

A Mangueira optou por uma abordagem localizada, com crítica à opressão política e financeira ao carnaval. Mesmo sem título, o brilhantismo de Leandro Vieira segue intacto. Foi ele o protagonista da reação ao prefeito que despreza a festa mais importante da cidade e, por isso, virou Judas no cortejo verde-e-rosa. O Salgueiro errou ao espalhar o artifício do blackface na bateria, em composições de carros alegóricos e, além disso, usar homens na comissão de frente que reverenciava as iabás, divindades femininas, num enredo sobre mulheres negras. Justo no momento em que a população negra avança em escolaridade, senso crítico, construção de identidade racial e protagonismo. Alex de Souza pecou, não por ignorância, mas por indiferença ou preguiça. Ainda assim, produziu momento de extrema beleza com sua Pietá negra coberta com trechos do livro "Quarto de despejo, o diário de uma favelada", de Carolina Maria de Jesus. Antológico.

Desfile da Portela , que falou sobre xenofobia - Alexandre Cassiano / Agência O Globo No confronto direto entre campeã e vice, sou Tuiuti. Prefiro a abordagem estrutural de Jack Vasconcelos no enredo sobre os 130 anos da Lei Áurea à crueza conjuntural de Marcelo Misailidis na Beija-Flor. Embalada pelo samba-manifesto de Moacyr Luz, Claudio Russo e parceiros, a escola de São Cristóvão clamou contra a desigualdade histórica, forjada na escravidão e que chega aos dias de hoje, na forma de violação de direitos trabalhistas e reformas econômicas de um presidente impopular. O povo de Nilópolis desfilou contra-tudo-que-está-aí. Por isso, agradou. Prova inequívoca foi a catarse coletiva que levou espectadores a seguirem à escola no fim do desfile principal cantando a plenos pulmões: "Pátria amada, por onde andarás? Teus filhos já não aguentam mais".

No mosaico armado pela escola dos gigantes Neguinho (intérprete), Selminha Sorriso e Claudinho (primeiro casal), mestres Rodney e Plínio (bateria) todo brasileiro tinha um caco. Havia gritos entalados na garganta contra corrupção na política e no futebol; violência homicida que fuzila criança na escola, jovens em favelas e policiais na rua; intolerância religiosa; LGBTfobia; desigualdade de gênero; instituições democráticas fragilizadas; carga tributária. Passou pelo Sambódromo o banquete dos guardanapos em Paris, ícone do mal que o ex-governador Sérgio Cabral e seus cúmplices causaram ao Rio.

Agendas de direita e de esquerda, de coxinhas e mortadelas, se misturaram no desfile. Tudo embrulhado numa narrativa desconexa, com alegorias e fantasias feias e mal acabadas. Não foi agradável aos olhos o desfile da Beija-Flor. Mas a colagem caótica não é o retrato do Brasil nos últimos anos? Feio, virulento, difícil de entender e inaceitável. A escola venceu porque transformou em samba a insatisfação generalizada e antipolítica. Foi 2013 releitura. O ano promete.

O júri que foi carregado pelo povo por Leonardo Bruno Pense bem, caro leitor: você é jurado do carnaval. Passa pela sua frente um dos melhores sambas do ano, uma bateria espetacular, um casal de mestre-sala e porta-bandeira mítico, um puxador que é uma glória da nossa cultura. Atrás deles, uma multidão. O povo. Do torcedor pé de chinelo do Setor 1 à patricinha-com-camisa-customizada do camarote. Todos cantam, felizes da vida. Bradam as palavras de ordem do samba. Lavam a alma num grito contra a corrupção, emulando junho de 2013. É o público carregando a escola no colo, com uma emoção que ainda não havia passado pela Avenida. Pois bem, que nota você dá? Os jurados responderam à la Carlos Imperial: "Dez, nota dez".

O júri oficial, tão criticado por ser técnico, frio e calculista (lembram os títulos sem sal da Imperatriz há duas décadas?), dessa vez foi populista. Premiou a escola que foi abraçada pelo povo, sem observar falhas no enredo, na comissão de frente, na concepção das alegorias. A Beija-Flor apresentou uma nova estética, realista, pouco carnavalesca. Levou ao Sambódromo homens armados, PMs mortos, crianças assassinadas, mães chorosas. Para os apaixonados pela festa, foi crime de lesa-Sapucaí, ofensa à memória de Ismael Silva, um desrespeito com a Praça Onze. O Salgueiro, por exemplo, na hora de representar o mesmo sofrimento de uma mãe com a morte violenta do filho, apresentou uma Pietà negra, na alegoria mais linda do ano. Ou seja, carnavalizou o tema, poetizou a realidade (procure o termo "alegoria" no dicionário e você vai encontrar: interpretação sob forma figura, simbolismo, metáfora).

A violência representada, com cenas de assaltos e vítimas de balas perdidas - MAURO PIMENTEL / AFP A Beija-Flor incorporou Jojo Todynho e, que tiro foi esse?, chutou as metáforas para longe. Corrupção, violência, intolerância, foi tudo enfiado goela abaixo dos espectadores, sem anestesia. O povo gostou; o júri referendou. E Nilópolis chegou ao oitavo título em 16 anos. A prova dos nove acontece neste sábado, às 3h da manhã, na Passarela do Samba. A Beija-Flor volta a encontrar o público, dessa vez como campeã do carnaval. E aí vamos ver se a paixão das arquibancadas por esse desfile se mantém, ou se foi só amor de carnaval. Quanto aos torcedores tristes das outras escolas, não tem jeito, há de se aceitar o resultado. Mas, no ano que vem, que o carnaval seja mais Pietà e menos Petrobras. Não se trata de uma homenagem a Michelangelo. Mas uma reverência a Tia Ciata.

Quando coração e clamor importam mais por Bernardo Araújo "É inadmissível o Tuiuti ficar fora das campeãs!", dizia um tweet; "A Beija-Flor tocou na ferida", berrava alguém no Facebook. Pois o clamor popular chegou ao julgamento, e as duas escolas com críticas sociais, ao lado da Mangueira, quinta colocada (e injustiçada), chegaram aos dois primeiros lugares no pódio do carnaval 2018.

À sensibilização do povo, no caso da Beija-Flor, somou-se a tradicional boa vontade (ou medo?) com a escola: além das tradicionais e merecidas boas notas em samba-enredo, bateria, evolução e mestre-sala e porta-bandeira, o fraquíssimo trabalho visual foi punido com poucos décimos: dois em alegorias e adereços e um em fantasia. O enredo confuso, panfletário, caça-likes perdeu apenas um décimo.

Reside aí um problema que não é da Beija-Flor, mas do julgamento: por que as notas não saem de 9,8, 9,9, e 10, com raras ocorrências de graduações mais baixas? Por que um conjunto alegórico como o do Salgueiro, luxuoso, perde um décimo (possivelmente devido a pequenos danos na concentração), e os carros de mau gosto da Beija-Flor perdem dois? E a apenas simpática Unidos da Tijuca, que gabaritou no quesito?

Destaque do último carro alegórico da Paraíso do Tuiuti vestido de vampiro com uma faixa presidencial e notas de dinheiro, uma alusão ao presidente Michel Temer - Mauro Pimentel / AFP Se os jurados tivessem menos medo de usar os décimos, talvez o resultado fosse mais justo. No fim, a Beija-Flor acabou campeã em samba-enredo, no qual merecia de fato nota maior do que o Salgueiro. Porém, quando deveria ser punida, foi pouco.

O Paraíso do Tuiuti, grata surpresa do desfile, também acabou, na dança dos décimos, beneficiado com o vice-campeonato. A comoção causada com "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?" se sobrepôs à frieza dos quesitos, dando à escola de São Cristóvão uma colocação acima do que ela realmente apresentou.

Assim como o papel social das escolas, que as empurrou para cima, não deveria ser levado para as notas, sua história tampouco deveria entrar na avenida. O Tuiuti ficou no Grupo Especial por causa de uma manobra da Liga Independente das Escolas de Samba, após terminar em último lugar em 2017, devido, entre outras coisas, a um acidente com várias vítimas, uma fatal; a escola tampouco prima pela transparência nas relações trabalhistas e financeiras, mas isso também não deve ser levado em conta pelos jurados.

Da mesma forma, a Beija-Flor ter louvado ditaduras em desfiles passados, entre outras peripécias, não é fator que pese no resultado de 2018 - apenas na pálida lembrança do público, que se viu representado com as esquetes teatrais na avenida (com fervor) da mesma forma que reclamou (sem tanta paixão) das loas à Guiné Equatorial no desfile campeão de 2015.

Onde termina o carnaval e começa a vida real? O público não tem a menor obrigação de traçar os limites. Isso deveria caber aos jurados.

Quem ganhou foi o carnaval por Artur Xexéo O desfile deste ano mostrou claramente duas tendências. Vimos as escolas que optaram por uma apresentação tradicional, como a União da Ilha ou a Mocidade, e as que investiram no engajamento político, como a Beija-Flor e a Paraíso do Tuiuti. O público e os jurados da Liesa não tiveram dúvida em escolher uma delas. Ganhou a Beija-Flor, seguida de perto pela Tuiuti, as agremiações que usaram a Avenida para protestar contra "tudo isso que está aí". Diante da reprodução do noticiário político e policial da primeira e o "Fora, Temer!" da segunda, o júri não teve problema em eleger a campeã. Apostou na melhor.

A Beija-Flor fez o que mais se espera de uma escola de samba: surpreendeu. Ao organizar um desfile teatralizado, trouxe para o Sambódromo cenas do cotidiano brasileiro. A corrupção e a violência foram mostradas de forma carnavalesca por meio de alas fantasiadas de políticos com malas de dinheiro ou encenações de crianças atingidas por balas perdidas na escola. As alegorias foram criticadas. Pareciam simples demais. Eram mesmo. O carro que tentava reproduzir o edifício da Petrobras era até feio. Mas, quando ele se transformava e exibia cenas múltiplas vividas numa favela, tornava-se deslumbrante.

Um dos carros representou a favela e seus diferentes moradores em tarefas cotidianas - Marcio Alves / Agência O Globo No finzinho da apuração, a única concorrente que ameaçava a Beija-Flor era o Salgueiro. A vermelho e branco também tinha um enredo engajado, a importância da mulher negra na História da Humanidade. Mas fez uma apresentação tão perfeita quanto convencional, daquelas nas quais não se difere uma fantasia de mulher-faraó da de uma rainha iorubá. Só que, a partir do momento em que ficou decidido que o desempate se daria pelo quesito samba-enredo, o Salgueiro não tinha nenhuma chance. O samba da Beija-Flor era imbatível. Ganhou a escola que mais arriscou. Bom para o carnaval.

Na Sapucaí, até a corrupção acaba em samba por Bernardo Mello Franco Foi o carnaval mais politizado dos últimos anos. As críticas aos governantes deram o tom dos desfiles na Sapucaí. Melhor assim. Não faz muito tempo, grandes escolas obrigavam os foliões a exaltar o progresso de Campos, Cuiabá e Maricá. Comovidos, os prefeitos abriam os cofres para patrocinar as homenagens. Com verba pública, é claro.

Em 2018, a chapa-branca deu lugar à contestação. A Mangueira transformou o prefeito Marcelo Crivella num boneco de Judas. A Tuiuti retratou o presidente Michel Temer como um vampiro. A Beija-Flor lembrou a farra dos guardanapos do ex-governador Sérgio Cabral.

Pode ter sido a falta do dinheiro oficial, mas deu certo. As três escolas empolgaram o público e foram celebradas além dos limites do Sambódromo. Isso é bom para a festa, que vem perdendo prestígio e capacidade de surpreender.

Nas redes sociais, os foliões de esquerda aclamaram a Paraíso do Tuiuti. A escola debochou do pato da Fiesp, dos batedores de panela e da reforma trabalhista. Deu um recado mais contundente que a maioria dos partidos de oposição.

Carro que representava novo navio negreiro também levava manifestantes de camiseta da Seleção Brasileira como fantoches sendo guiados por mãos de colarinho branco - Marcelo Theobald / Agência O Globo A Beija-Flor exibiu um Congresso cercado por malas de dinheiro e ratazanas. Ao lembrar as vítimas da violência, encenou tiroteios e enterros de crianças. Foi a preferida de quem endossa o discurso contra "tudo isso que está aí".

O debate é interessante, mas convém não levá-lo muito a sério. Quem se empolgar demais com a indignação das escolas corre o risco de cair na mesma armadilha dos "manifestoches" da Tuiuti.

O Sambódromo é um território onde o crime convive animadamente com o poder. Chefões do jogo do bicho e das milícias comandam a festa e se esbaldam nos camarotes. São bajulados por artistas, empresários e jogadores de futebol.

A campeã Beija-Flor, que criticou a corrupção dos políticos, é comandada há décadas pelo contraventor Aniz Abraão David, o Anísio. Em 2012, ele foi condenado a 48 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro, sonegação e contrabando. Continua solto graças à generosidade do Supremo Tribunal Federal.

Ontem, na festa da apuração, o capo foi exaltado ao vivo em rede nacional. "Anísio, esse título é teu!", gritou um dirigente da escola de Nilópolis. Alguém duvida?

Carnaval, carnaval por Cora Rónai Quase meia-noite e o telefone cantou, avisando uma nova mensagem: "Pode isso?", perguntava a Bia pelo WhatsApp. A foto que vinha junto mostrava três corpos caídos na portaria do prédio, numa ruazinha sossegada do Jardim Botânico. Levei um susto. À primeira vista pareciam cadáveres, dispostos de qualquer jeito no meio do caminho, como se tivessem sido atingidos ali mesmo. Mas não havia sangue, e a própria pergunta não indicava nenhuma tragédia maior. Eram apenas três rapazes que beberam tanto, mas tanto, que não conseguiram ir além de certo ponto. Suponho que a uma determinada altura acordaram e tomaram o seu rumo. Se alguém perguntar, vão certamente dizer que se divertiram muito, e talvez seja mesmo verdade.

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A casa da minha irmã parece um minibarracão durante o carnaval. Todos amam sair, e há uma profusão de acessórios e de material de costura para os improvisos de última hora. No ano passado levaram Mamãe para um dos blocos, fantasiada de alguma coisa verde e, do alto dos seus então 92 anos, ela fez sucesso: as pessoas que a viam de costas com os seus cabelos brancos davam a volta para ver se era mesmo uma velhinha animada ou alguém mais jovem com uma peruca bem feita. Posou para incontáveis fotos, cantou e dançou, mas não se empolgou o suficiente para repetir a experiência este ano.

Eu entendo.

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Três amigos ficaram sem os celulares durante a festa. Dois nem perceberam o que aconteceu, o terceiro entregou o aparelho quando sentiu a ponta de uma faca contra a barriga. Segundo a polícia, erro deles: para que celular durante o carnaval, não é? Selfie na rua numa hora dessas, imagina.

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Não dá para subestimar a importância do desfile das escolas de samba. Mas talvez essa "parada carnavalesca", como define a Wikipedia, que já foi a alma da folia carioca, esteja se deslocando na geografia emocional da festa. Hoje o carnaval de rua é soberano, avassalador — e, como sempre foi, muito mais acessível. Tenho a impressão de que, para a maioria das pessoas arrastadas pelos blocos, o desfile é algo que acontece à distância, numa bolha à parte.

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Ou a cidade começa a repensar o carnaval de rua, ou o carnaval de rua engole a cidade. Carnaval é liberdade, é festa e celebração, mas não pode ser a bagunça e a violência que se viram este ano. Metrô subdimensionado, tráfego impossível, arrastões, furtos, turistas agredidos, aeroporto invadido — nada disso é aceitável, sob nenhum pretexto.

Também é inaceitável que o prefeito, em tese a autoridade responsável pelo bom funcionamento do município, se ausente do Rio justamente no instante em que há mais turistas e mais confusão na área. Mais do que omissão, deixar o posto em momento tão emblemático é cuspir na cara da cidade, é mandar aos cidadãos o claro recado de que o capitão abandonou o navio.

Não que, a rigor, precisássemos desse recado; a essa altura, já temos uma boa dimensão da calamidade administrativa em que afundamos.

Bloco Fervo da Lud, no Centro do Rio - Marcelo Régua / Agência O Globo ______

Melhor meme da semana:

"Já que a chave da cidade está com o Rei Momo, troca a fechadura para o prefeito não voltar."

Não conheço o Rei Momo, mas tenho certeza de que sairíamos no lucro.

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Hay gobierno, soy contra .

Achei excelentes os protestos nos desfiles. É sempre uma felicidade ver o poder tripudiado em praça pública, durante uma festa popular; também é uma alegria ver escolas de samba falando em nome dos governados, e não dos governantes. Pena que, ao longo dos últimos 15 anos, elas tenham preferido, em larga escala, ignorar o que acontecia no país. Em entrevista dada à revista online "Carnavalesco", Jack Vasconcelos, responsável pelo festejado desfile da Tuiuti, explicou por quê:

"Eu acho que é positivo a gente poder se posicionar. Muito disso tem relação com a troca de governo. Hoje somos oposição e antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação. Enredos mais críticos não eram incentivados. Agora com uma guerra declarada tem essa abertura maior. Os dirigentes nos deixam livres, e temos mais é que fazer".

A única novidade na declaração é a sinceridade. Ninguém tinha exposto ainda, de forma tão clara, o que todos sabemos há tanto tempo.

"Antes éramos parceiros do poder e não podíamos arranhar a relação."

Uma coisa é protesto, outra é indignação seletiva, uma prima-irmã deformada do marketing e da hipocrisia.

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Rosa Magalhães é um fenômeno: como veio linda a Portela!

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O que é que está acontecendo com a voz das mulheres saradas da avenida? Eu hein.

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Eu sei, eu sei — o carnaval acabou ontem. Chega. Foi over. Foi carnaval. Vamos virar a página, vamos mudar de assunto. A vossa cronista, porém, escreve ainda na terça-feira, outro tempo, quase outro século, com certeza outro ano. Agora, enfim, começa 2018: vamos lá.





Aguardando o próximo carnaval por Luiz Antonio Simas Foi no ano de 604 que a Igreja estabeleceu um período de cerca de 40 dias em que os fiéis deveriam se dedicar às orações, ao jejum e penitências. O cristão não poderia comer carne, consumir bebidas alcoólicas, festejar. A princípio a Quaresma não tinha época fixa para acontecer; até designar-se que ela ocorreria no período anterior à Páscoa. Com a fixação do período, um hábito começou a ganhar força entre os europeus. Nos dias anteriores ao início do jejum, as pessoas passaram a realizar festas cada vez mais animadas, com comida farta, danças, bebidas e fantasias. Eram os dias de fartura que dariam lugar aos 40 dias de recolhimento. Os fuzuês começaram a ser chamados de dias do adeus à carne.

Com o passar dos anos, a festa do adeus à carne — o nosso carnaval — transformou-se em um período de desregramento, em que as pessoas dançavam fantasiadas, comiam carnes gordurosas, revelavam os amores secretos, brincavam e zombavam dos inimigos. O carnaval, desde então, espalhou-se pelo continente europeu, adquiriu características próprias dos locais em que era realizado e chegou ao continente americano com a expansão colonial.

A bagunça acabava à meia-noite da terça-feira gorda, quando tinha início o período de jejuns e orações. Nas primeiras horas da quarta-feira, as testas dos fiéis eram marcadas, nas igrejas, com uma cruz feita com as cinzas de uma fogueira que queimava simbolicamente os pecados. Eis aí a origem da expressão "quarta-feira de cinzas".

A festa do adeus à carne de 2018 reforçou algo que escrevi nesta página recentemente: a aparente festa de alienação é, entre nós, um momento de exacerbação das tensões cotidianas. No velamento das máscaras e fantasias, o desvelamento dos confrontos que bordam o tecido social parece mais evidente que nunca.

No Rio de Janeiro, a coisa já começa pelo comportamento escancarado do prefeito, que aproveitou o momento para se pirulitar. Não me surpreende. Em 2016, o bispo Clodomir, da mesma igreja que o alcaide, escreveu um texto no site da igreja afirmando que o carnaval é uma festa do diabo e que quem participa dele está "agradando ao espírito maligno e expondo a própria alma ao inferno". Disse também que quem morre durante o carnaval — em acidente de carro ou consumindo drogas pesadas — vai direto para os braços do capeta. O carnaval também desestrutura as famílias, por causa da "grande valorização da sexualidade e das traições amorosas".

Tudo bem que o prefeito tenha lá medo do diabo. A "pessoa física" Marcelo Crivella tem todo direito de detestar o carnaval, achar que é coisa do demônio e ir pro outro lado do planeta para escapar das tentações de Momo. O prefeito do Rio, por tudo que o carnaval representa para a construção do imaginário da cidade e como um dos fundamentos dos modos de fazer que costuram a cultura do povo daqui, não tem esse direito. Ele é prefeito do Rio de Janeiro, não é síndico de condomínio onde tem apartamento. Não gosta de carnaval e é prefeito do Rio? Deveria tomar um remédio, entregar a chave para o Rei Momo e eventualmente vomitar no banheiro depois do ato. Quem não entende a dimensão do campo simbólico para o exercício dessa função deveria fazer outra coisa.

O prefeito Marcelo Crivella cumprimenta o Rei Momo durante a cerimônia de entrega da chave do carnaval - Marcelo Régua / Agência O Globo Não obstante, o prefeito acabou de certa forma permanecendo no carnaval e desfilando na Mangueira, malhado no enredo de Leandro Vieira sobre a potência do carnaval de rua como catalisador da alma da cidade. Paraíso do Tuiuti e Beija-Flor, com enredos sobre a história das diferentes formas de escravidão e as mazelas sociais brasileiras, também transformaram o Sambódromo em palco de discussões políticas que chegaram às redes sociais e deram origem a um curioso Fla X Flu. Nele, a bizantina discussão sobre enredos de direita ou de esquerda nublou a teia complexa de sentidos que caracteriza uma escola de samba e as maneiras como ela lida com as circunstâncias.

Vejo nessas discussões um lado extremamente positivo. Contanto que as pessoas não fiquem se agredindo e tendo siricoticos nervosos, as divergências sobre os desfiles mostram que as escolas de samba ainda podem recuperar o protagonismo perdido, causando comoção, boa disputa, expectativa, espera pelo resultado oficial, etc. O desafio que está colocado para o futuro é o da formação de público entre os mais jovens. Fora da bolha, os desfiles praticamente não interessam à maioria da população. Tomara que o impulso para a reconquista da alma da cidade tenha sido dado e que a gente consiga sobreviver no inferno ao intervalo cinza entre um carnaval e outro; até que o diabo da festa nos conduza novamente ao paraíso.

Oh, pátria amada, esqueceram o PT! por Ascânio Seleme O carnaval da Marquês de Sapucaí é uma escola. Os desfiles contam histórias brasileiras repletas de cores e licenças artísticas. Um festival de sambas exuberantes e momentos inesquecíveis da criatividade popular. E quase sempre trazem críticas contundentes, desenhadas para alertar almas e consciências. Claro que sem sofisticação acadêmica, mas, ainda assim, críticas que são facilmente compreendidas por toda a arquibancada, por toda a plateia.

Este ano não foi diferente. Quatro escolas se destacaram neste quesito. Mangueira, que cantou o carnaval do Rio sem dinheiro e sem prefeito. Salgueiro, que foi muito bem ao celebrar a mulher negra, apesar da polêmica black face da turma da bateria. A campeã Beija-Flor, que usou a história de Frankenstein para criticar a corrupção e a violência no Brasil. E Paraíso do Tuiuti, que usou a escravidão para criticar as reformas do governo Temer e para também tratar da corrupção.

Mas há um problema. Quando se contam histórias tão recentes, como a das reformas e a da corrupção endêmica brasileira, deve-se levar em conta que elas ainda estão em curso e, portanto, vivas na memória das pessoas. Se a história atravessar, será fácil perceber. A Beija-Flor, por exemplo, acertou ao retratar o Rio de Sérgio Cabral, com seus jantares fartos e guardanapos na cabeça, mas errou ao praticamente ignorar o PT no seu enredo de ratazanas.

A escola mostrou alegoricamente o assalto à Petrobras, mas sem qualquer referência aos governos Lula e Dilma. Corretamente, a Beija-Flor colocou uma ala de políticos de terno carregando malas de dinheiro, numa alusão direta a um primo do senador Aécio Neves e ao deputado Rodrigo Loures, amigo do presidente Michel Temer, que foram filmados pela Polícia Federal com malas iguais. Mas se era para mostrar cédulas, por que não as cuecas petistas inchadas de dólares ou as caixas de Geddel?

Os primeiros setores homenagearam o clássico desfile "Ratos e Urubus — Larguem minha fantasia", de 1989 - Gabriel de Paiva / Agência O Globo Na casa de tolerância da Petrobras, a escola mostrou empreiteiros com os bolsos dos paletós e das calças cheios de cédulas. Mas não houve menção aos tesoureiros do PT e de partidos aliados sendo presos em escala industrial por uso indiscriminado de caixa dois repletos de dinheiro dos mesmos empreiteiros nas campanhas eleitorais.

E em se tratando da corrupção brasileira, não poderiam faltar o tríplex e o sítio do ex-presidente Lula. Nada é mais emblemático neste ambiente que os dois imóveis, mesmo para aqueles que dizem não existir provas de o apartamento do Guarujá ser mesmo de Lula. O fato é que o ex-presidente foi condenado a 12 anos de cadeia por sua causa. Como o tríplex poderia faltar neste enredo? E que alegoria mais simples e eficiente se faria com a sua fachada.

Sobre a Tuiuti, pode-se dizer que fez uma leitura parcial da história das reformas. Foi correta a citação ao presidente Temer. Não há dúvida de que ele foi a principal personagem das reformas criticadas pela escola. Do alto de um carro, com a faixa presidencial, o presidente era caracterizado como um vampiro, talvez porque o carnavalesco Jack Vasconcelos o veja sugando o sangue dos pobres brasileiros indefesos. Tudo bem, carnaval é assim mesmo, e claramente a escola tinha um lado.

Mas, de maneira inusitada, a Tuiuti criticou a crítica. Colocou na avenida, como fantoches, personagens vestidos com a camisa da seleção brasileira batendo panelas. Talvez quisesse se referir aos que apoiaram as reformas de Temer, mas a história diz que aquelas manifestações foram na verdade em favor do impeachment da ex-presidente Dilma. Apesar de ser estranho fazer crítica a manifestações, uma vez que ela foi feita, por que não criticar também as favoráveis a Dilma?

E, da mesma forma, só apareceram fantoches amarelos ao lado dos patos da Fiesp. Como se todos os manifestantes que apoiaram o impeachment de Dilma fossem manipulados pelo sindicato patronal da indústria paulista. E aqui, mais uma vez, a parcialidade da Tuiuti não mostrou os fantoches da Central Única dos Trabalhadores, do MST e do MTST, os movimentos dos sem-terra e sem-teto ligados ao PT, que ajudaram a dar volume às manifestações a favor de Dilma e em defesa de Lula.

Vamos ser justos, o PT e seus aliados mereciam mais destaque nos carnavais críticos de Beija-Flor e Tuiuti. Mas há, claro, quem discorde. O diretor de carnaval da escola de São Cristóvão, Thiago Monteiro, disse para o site da revista "Carta Capital" que a Paraíso do Tuiuti "falou o que o povo quer ouvir". Pode ser, mas o povo ficaria mais feliz se ouvisse a história toda, e não apenas uma parte dela.

Ascânio Seleme é jornalista

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